Lou Reed, 1942-2013

16:24

Homenagem póstuma do Lou Reed  feita pela Patti Smith na The New Yorker:

"Domingo de Manhã, levantei-me cedo. Na noite anterior tinha decidido ir ao mar, então coloquei um livro e uma garrafa de água em um saco e peguei uma carona para Rockaway Beach. Parecia ser uma data significativa, mas eu não consegui definir nada específico. A praia estava deserta, e com o aniversário iminente do furacão Sandy, o mar calmo parecia incorporar a verdade contraditória da natureza.
Eu fiquei lá por um tempo, traçando o caminho de um avião voando baixo, quando recebi uma mensagem de texto da minha filha Jesse. Lou Reed morreu. Hesitei e respirei fundo. Eu tinha encontrado ele e sua esposa Laurie na cidade recentemente, e senti que ele estava doente. Um cansaço sombreava o brilho habitual de sua mulher. Quando Lou se despediu, seus olhos escuros pareciam conter uma infinita e benevolente tristeza. Conheci Lou no Max’s Kansas City [casa de shows de Nova Iorque] em 1970. O Velvet Underground fez dois shows por noite durante várias semanas naquele verão. O crítico e acadêmico Donald Lyons estava chocado porque eu nunca havia visto eles, e me levou lá em cima para o segundo show da primeira noite. Eu amava dançar, e você podia dançar por horas ao som do Velvet Underground.
Um surfe dissonante de doo-woop com zunidos permitindo você se mover bem rápido ou bem devagar. Essa foi minha apresentação tardia e reveladora a “Sister Ray”. Dentro de alguns anos, no mesmo lugar, no andar de cima do Max, Lenny Kaye, Richard Sohl e eu apresentamos nosso próprio “terra das mil danças”. Lou as vezes parava para ver o que estávamos fazendo. Um homem complicado, ele nos encorajava, mas depois mudava e me provocava como um garotinho maquiavélico. Eu tentava desviar dele, mas, felino, ele reaparecia de repente e me desarmava com alguma citação de Delmore Schwartz [poeta americano] sobre amor ou coragem. Eu não entendia seu comportamento errático ou a intensidade do seu temperamento, que variava, assim como seu modo de falar, que ia do rápido ao lacônico. Mas eu entendia sua devoção à poesia e a qualidade arrebatadora de suas performances.
Ele tinha olhos negros, camiseta preta, pele clara. Ele era curioso, às vezes desconfiado, um leitor voraz e um explorador sonoro. Um obscuro pedal de guitarra era para ele um outro tipo de poema. Ele era nossa ligação com o ar infame da Factory. Ele fez Edie Sedwick dançar. Andy Warhol sussurava em seu ouvido. Lou trouxe as sensibilidades da arte e literatura para a sua música. Ele era o poeta de Nova Iorque da nossa geração, defendendo os desajustados como Whitman havia defendido os trabalhadores e Lorca os perseguidos.
Com a minha banda evoluída e fazendo versões de suas músicas, Lou nos deu suas bençãos. Perto do fim da década de setenta, eu estava me preparando para deixar a cidade [de Nova Iorque] por Detroit quando eu cruzei com ele no elevador do velho Gramercy Park Hotel. Eu estava carregando um livro de poemas de Rupert Brooke. Ele pegou o livro da minha mão e olhou junto a foto do poeta. Tão bonito, ele disse, tão triste. Esse foi um completo momento de paz.
Com as notícias da morte de Lou se espalhando, uma ondulante sensação montada, então explodiu, preenchendo a atmosfera com uma energia hipercinética. Dezenas de mensagens encontram caminho até mim. Uma ligação de Sam Shepard, dirigindo um caminhão por Kentucky. Um modesto fotógrafo japonês enviando uma mensagem de texto de Tóquio – “Eu estou chorando.”
Enquanto eu me lamentava pelo mar, duas imagens vinham à minha mente, marcando o céu de cor de papel. A primeira era o rosto da sua esposa, Laurie. Ela era o seu espelho; nos seus olhos pode-se ver sua bondade, sinceridade e empatia. A segunda foi o “great big clipper ship” que ele desejava estar a bordo, da letra da sua obra-prima “Heroin”. Eu imaginava isso esperando por ele sob a constelação formada pelas almas dos poetas que ele tanto almejava fazer parte. Antes de dormir, eu pesquisei pelo significado da data – 27 de outubro – e encontrei o aniversário de Dylan Thomas e Sylvia Plath [ambos grandes poetas americanos]. Lou havia escolhido o dia perfeito para velejar – o dia dos poetas, num domingo de manhã [fazendo referência à música “Sunday Morning”], o mundo atrás dele."

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