17:55


Clínica de repouso


Dalton Trevisan


     Dona Candinha deparou na sala o moço no sofá de veludo e a filha servindo cálice de vinho doce com broinha de fubá mimoso.
   - Mãezinha, este é o João.
     Mais que depressa o tipo de bigodinho foi beijar a mão da velha, que se esquivou à gentileza. O mocinho servia o terceiro cálice, Maria chamou a mãe para a cozinha, pediu-lhe que aceitasse por alguns dias.
   - Como pensionista?
   - Não, como hóspede da família. Irmão de uma amiga de infância, sem conhecer ninguém de Curitiba, não podia pagar pensão até conseguir emprego.
     Dias mais tarde a velha descobriu que, primeiro, o distinto já estava empregado (colega de repartição de Maria) e, segundo, ainda que dez anos mais moço, era namorado da filha. A situação desmoralizava a velha e comprometia a menina. Dona Candinha discutiu com a filha e depois com o noivo, que achava a seu gosto a combinação.
    - Sou moço simples, minha senhora. Uma coxinha de frango é o que me basta. Ovo frito na manteiga.
    Dona Candinha os surpreendia aos beijos no sofá. A filha saia com o rapaz, voltavam depois da meia-noite. Ás três da manhã a velha acordava com passos furtivos no corredor.
    - Você põe esse moço na rua. Ou tomo uma providência.
    - A senhora está louca.
    Maria era maior, podia entrar a hora que bem quisesse, a velha estava caduca. Assim que a filha saiu, dona Candinha bateu na porta do hóspede, ainda de pijama azul de seda com bolinha branca:
    - Moço, você ganha a vida. Tem como se manter. Trate de ir embora.
    De volta das compras (delicadezas para o príncipe de bigodinho), a filha insultou dona Candinha aos gritos de velha doida, maníaca, avarenta.
    - Não vai me dar nem um tostão para esse pilantra. Ai, minha filha, como me arrependo do dia em que noivou.
    Maria nem pode responder:
    - Eu, sim, me arrependo do dia em que a senhora casou.
    Sentiu-se afrontada a velhota, com palpitação, tontura, pé frio. Arrastou-se quietinha para a cama, cobriu a cabeça com o lençol:
    - Apague a luz – ela gemeu – que vou morrer.
    Susto tão grande que o rapaz decidiu arrumar a mala. Manhã seguinte a velha pulou cedo, alegrinha espanou os elefantes coloridos de louça. A filha não almoçou e antes de bater a porta:
    - O João volta ou saio de casa. A vergonha é da senhora.
    Dona Candinha fez promessa para as almas do purgatório. Tão aflita, em vez de rezar dia por dia, rematou a novena numa tarde só.
     - Menina, não se fie de moço com dente de ouro.
     - Lembre-se, mãe, a senhora me despediu.
     -Vá com seu noivo. Depois não se queixe, filha ingrata.
     De tanto se agoniar dona Candinha caiu de cama.
     - A senhora não me ilude. Finge-se doente para me castigar. Com este calor debaixo da coberta.
     - Muito fraca. Eu suo na cabeça. O pé sempre frio.
     Deliciada quando a moça trazia chá com torrada. Terceiro dia, a filha inrompe no quarto, escancara a janela. Introduz o gordo perfumado:
     - O médico para a senhora.
     O doutor examinou-a e, para o esgotamento nervoso, receitou cura de repouso.
     - A senhora vai por bem – intimou a filha – ou então à força.
    Queria o convento das freiras e não o hospital, que lhe recordava o falecido, entrevado na cadeira de rodas. Umas colheradas de canja, cochilou gostosamente. Às duas da tarde, o aposento invadido pela filha, o noivo e um enfermeiro de avental sujo.
    - É já que vai para a clínica.
    - Eu vou se não for asilo de louco. Bem longe do doutor Alô.
    Um táxi esperava na porta, o noivo sentou-se ao lado do motorista, ela apertada entre a filha e o enfermeiro. Quando viu estava no Asilo Nossa Senhora da Luz, perdida com doida, epilética,alcoólatra.      
Nunca entra sol no pavilhão, a umidade escorria da parede, o chão de cimento. De noite o maldito olho amarelo sempre aceso no fio manchado de mosca.
    - Quem reclama – era o sistema do doutor alô – ganha choque!
    Ao menor protesto ou queixume:
    - Olhe o choque, melindrosa! Olhe a injeção na espinha! Olhe a insulina na veia!
    Um banheiro só e, depois esperar na fila, aquela imundície no chão e na parede. A louquinha auxiliava a servente que, essa, fazia de enfermeira. Intragável o feijão com arroz, dona Candinha sustentava- se a chá de mate e biscoito duro. Engolia com esforço o caldo ralo de repolho.
     Vinte e dois dias depois recebeu a visita da filha, o noivo fumava na porta.
     - A senhora fazendo greve de fome?
     - Na minha casa o arroz é escorrido, o feijão lavado.
     - Só de braba não come.
     Daí a tortura da sede. Servia-se da torneira no banheiro, não é que uma possessa vomitou na pia? Foi encher o copo, deu com tamanho horror. Embora lavada a pia, guardou a impressão e sofria a sede.
    - Doidinha eu sou – disse uma das mansas – Meu lugar é aqui. Mas a senhora fazendo o quê?
    Uma lunática oferecia-lhe bolacha e fruta. Mandou bilhete na sua letra caprichada, a filha só apareceu domingo seguinte.
      - A senhora não está boa. Nem penteia o cabelo. Não cumprimenta o doutor Alô.
      - Essa ingratidão não posso aceitar – e abafava o soluço no pavor do choque – Não sou maluca e sei me mandar.
     - Prove.
     - Com o túmulo de seu pai. Já pintado de azul.
     Instalado na casa, o noivo regalava-se com ovo frito na manteiga,coxinha gorda de frango.
     - Quem não come – advertia a servente – vai para o choque!
     Dona Candinha encheu-se de coragem e choramingou para a freira superiora que não tomava sol, sofria de reumatismo, coma gritaria das furiosas que podia dormir?
     Ao cruzar a enfermaria, a freira chamou uma das bobas
     - Você é nova aqui?
     - Entrei ontem , sim senhora.
     - Se tiver alguma queixa, fale com dona Candinha. – e batendo palmas de tanta graça. – é a palhaça do circo.
    A servente largava o balde e o enxergão, sem lavar as mãos aplicava insulina na veia de uma possessa. Dona Candinha fingia tossir e cuspia a pílula escondida no buraco do dente.
    Chorando de manhã ao se lembrar do tempo feliz com o finado. Á noite, chorava outra vez: menina tão amorosa, hoje feroz inimiga. Não doía ter sido internada. – culpa sua não sair da cama – Mas sabendo o que sofria, a moça não a tirasse dali.
     - Minha própria filha? Estalou baixinho a língua ressequida. – que não me acudiu na maior precisão?     Surpreendida rondando o portão, confiscaram-lhe a roupa, agora em camisola imunda e chinelo de pelúcia. ?Sem se aquecer ao sol, sobrevivendo aos golinhos de chá frio e bolacha Maria. Tão fraca nem podia ler, as letras embaralhadas mesmo de óculo.
     - Olhe essa mulher ,doutor – era a filha, vestido preto de cetim, lábio de púrpura, pulseira prateada. –domingo de sol, uma pessoa deitada? O dia inteiro chorando e se queixando. Aqui não falta nada, que mais ela quer?
     - Vá-se embora – respondeu docemente a velha. Desapareça de minha vista. Você mais o dente de ouro.
     - De dia o rádio ligado a todo volume. Á noite, a gritaria furiosa das lunáticas. Sentadinha na cama, distrai-se a velha a espiar uma nesga de céu. Com paciência, amansa uma mosca nas grades, que vem comer na sua mão arrepiada de cócegas. Há três dias, afeiçoada à velhinha, não foge a mosca por entre as grades da janela..


(20 contos menores – 1979)

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